"Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia.” Clarice Lispector

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Amar ao próximo como a si mesmo

"De todos os mandamentos, qual é o mais importante? " Respondeu Jesus: "O mais importante é este:... ‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’. O segundo é este: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’".  Marcos 12:28,31

Jesus deseja que amemos o próximo da mesma forma que amamos a nós mesmo. Dessa necessidade de nutrição própria para nutrir o outro, precisamos reconhecer como anda a nossa autoestima. 

A pessoa com baixo autoestima acredita que não é amado. Essa crença pode ser devido a vozes negativas escutadas pela família (“Você nunca vai ser nada”), ausência paterna ou materna na infância, situações de rejeição enfrentados nos padrões sociais preestablecidos ou no moralismo social. Desse sentimento de inferioridade surge a recusa do “eu” verdadeiro e consequentemente aparece a “máscara” para esconder sua fragilidade. Assim surge um novo homem, perfeccionista e obsessivo por privacidade, com medo de mostra-se. 

Não conseguindo se aceitar nas suas próprias limitações, a pessoa tem dificuldade de aceitar as imperfeições do outro e amá-lo na sua mais pura forma humana. E assim se forma um ciclo vicioso de falta de amor e rejeição, uma incapacidade de amar e de viver relacionamentos autênticos,  inclusive com Deus. 

No seu livro “O Impostor que vive em mim” [1], Brennan diz que seu falso “eu” surgiu quando ele fez oito anos, como forma de se defender da dor. O impostor dizia para ele “nunca mais seja você mesmo, porque ninguém gosta de você como você é. Invente um novo eu que todos admirem e ninhuém consiga conhecer”. Foi assim que ele se tornou um garoto educado, bem-comportado, discreto, respeitoso, estudioso, que só tirava notas boas. Durante anos Brennan manteve o coração e a mente bem separadas em seu ministério. Ele proclamava as boas-novas do amor de Deus, a mente completamente convencida, mas sem sentir o mesmo no coração, pois ele nunca se sentiu amado.

Conhecendo os sintomas

Compulsão pelo trabalho, alcoolismo, drogas e vícios no geral são sintomas da fuga de si mesmo. Quando acreditamos em vozes que nos chamam de inúteis e indignos de amor, então, o sucesso, a popularidade e o poder são facilmente percebidos como soluções atraentes [1]. Honrarias e elogios passam a ser dependências, pois precisamos da avaliação do outro para nos convencer que somos bons. Busca de relacionamentos passa a ser fator primordial para felicidade, por acreditarmos que sozinho não é possível ser inteiro e feliz.

Tempo a sós, um termômetro para avaliar a autoestima

Como seria passar um tempo a sós? Sem pessoas, tv, celular, livros, sem ter o que fazer…. Em estudo publicado na revista Science [2], as pessoas diziam preferir causar dor a si mesmas do que passar 15 minutos em um quarto sem nada para fazer além de pensar. No experimento, os cientistas das Universidades da Virgínia e de Harvard confinaram cerca de 200 pessoas em um quarto sem celular nem material para ler ou escrever e concluiu: mais de 57% das pessoas acharam difícil se concentrar; 80% disseram que seus pensamentos vagaram; metade achou a experiência desagradável. Dois terços, sem ter o que fazer diante do silêncio, resolveram se entreter dando choques em si mesmos – um deles estraçalhou o próprio tédio com 190 choques .

O impostor tem pavor de ficar sozinho. Ele sabe que se ficar quieto, por dentro e por fora, descobrirá em si que não é nada [1]. 

Vencendo com Deus

Tudo que é negado não pode ser curado. Reconhecer suas armas para se esconder do verdadeiro “eu” é o caminho para se libertar das máscaras. A paz reside na aceitação da verdade.  Brennan concluiu que era em sua debilidade, impotência e fraqueza que Jesus o fortalecia. Era na aceitação da sua falta de fé que Deus poderia acrescentá-la. Era no reconhecimento das suas fraquezas que poderia identificar e aceitar a dos outros. Era na segurança com Deus que conseguia se sentir seguro consigo mesmo.

Aprendemos a ser gentis conosco ao experimentarmos a íntima e genuína compaixão de Jesus. À medida que permitimos que a ternura de Jesus fortaleça nosso “eu”, somos libertados dos falsos julgamentos que fazemos a nosso respeito. Cristo quer que mudemos essa atitude e o acompanhemos no combate contra esse tipo de avaliação pessoal [1]. 

Passar mais tempo a sós consigo mesmo pode ser um um caminho para se observar, se conhecer e dominar os pensamentos. Precisamos pensar no que diria Jesus no lugar dessas vozes que querem nos colocar para baixo. Gálatas 5:22,23 diz que “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.”.

Quando permitimos que Deus nos liberte da dependência doentia das pessoas, ouvimos com mais atenção, amamos de forma mais desinteressada e somos mais compassivos e leves. Quando nos  entendemos melhor, conseguimos entender o outro. Quando conseguimos viver um amor verdadeiro por nós mesmo, conseguimos amar o outro de forma pura e sem egoísmo.  

No nosso arrependimento e pedido de perdão de Deus, precisamos nos perdoar. Deus já disse:  "Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados” (Jeremias 31:34). Deus não apenas perdoa e esquece nossos pecados, mas também transforma a escuridão em luz. Todas as coisas, em conjunto, cooperam para o bem daqueles que amam a Deus - “até mesmo”, acrescentou Santo Agostinho, “nossos pecados”. [1]

Que possamos amar a Deus sobre todas as coisas, ao outro e a nós mesmos.

 Referências:
Biblia NVI
[1] O impostor que vive em mim, Brennan Manning
[2] http://www.cartacapital.com.br/cultura/vidas-secas-1-7824.html

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